Friday, February 15, 2013

Eis o grande desafio:

Conseguirmos ser robustamente seguros acerca da nossa identidade e ao mesmo tempo infantilmente incertos acerca da do Mundo.

Ou, por outras palavras:

Sabermos bem quem somos sem perder o espanto de existir.

Saturday, February 2, 2013

a propósito de tecnologia auricular.

À espera do autocarro, vários falam sozinhos. Para saber quais são loucos é preciso reparar nas orelhas e ver de quais sai um fio. Esses são os que estão bem. Estão bem porque têm um fio a sair da orelha e porque fazem perguntas sem que nunca se ouça a resposta. Têm a a conversa a metade e ficam satisfeitos assim. Os outros, do solilóquio sem fios, que dão as perguntas e as respostas, cuidado com eles.

Friday, January 4, 2013

"Todos falavam a mesma língua"

"Nos mais recuados dos tempos
quando pessoas e animais viviam na terra,
uma pessoa podia transformar-se em animal se o desejasse
e um animal podia transformar-se num ser humano.
Por vezes eram pessoas
e por vezes animais
e não havia diferença.
Todos falavam a mesma língua.
Era o tempo em que as palavras eram como magia.
O espírito humano tinha poderes misteriosos.
Uma palavra dita por acaso
podia ter estranhas consequências.
Subitamente, ganhava vida,
e podia acontecer o que as pessoas queriam que acontecesse -
tudo o que tinhas de fazer era dizê-la.
Ninguém era capaz de explicar isto:
Era como era."

Lenda inuit

Friday, December 28, 2012

A origem da mentira

Pietro Liberi - Allegoria della Verità che vince il Tempo

Quando começou a mentira?

Quem mentiu pela primeira vez?
Fomos nós? Os nossos ancestrais? Foi alguma nebulosa nos confins, enganando o próprio universo?
Foi a matéria traindo a anti-matéria? Foi o buraco negro no centro da nossa galáxia?

Foi a primeira folha roubando um raio de sol?

Quando começou a mentira?

Foi no princípio do Tempo. A mentira do Futuro e do Passado. A indefinição do Presente.
A dúvida cravada infinitamente na couraça da realidade.

Wednesday, December 5, 2012

Para uma teoria umbilical de Tudo.

Tudo tem o seu umbigo. Tudo brota de um sítio para outro diferente através de um canal umbilical que é o ponto cego da sua existência. Existe na retina de todos os olhos, bem como, mais famoso, no ventre de cada um de nós. No centro da nossa galáxia também há um ponto umbilical a que se chama buraco negro. Um desafio interessante será descobrir que outros umbigos há por aí.
Hipóteses:
O Tempo talvez seja o veículo umbilical do Real, por onde se desemaranha o Espaço, transportando-o de a para b.
A loucura também poderá estar próxima de uma natureza umbilical. Melhor pensando - os loucos são aqueles que se aproximaram demasiado do umbigo da consciência mas que embateram violentamente no seu bordo e ali ficaram, por perto, cambaleantes. (Porque há um umbigo da consciência e descobri-lo é a base da meditação, ou da experiência do divino, como quiserem.)

Dá vontade de escrever um tratado umbilicológico do Universo. Alguém disposto a fornecer o LSD?


Sunday, February 26, 2012

Falar português

Falar português é a arte de fazer desaparecer vogais mudas como folhas secas num incêndio de Agosto.

Friday, July 8, 2011

Teoria da desmemória

Hellen van Meene

Li
que se nos lembrássemos de tudo seria como se de nada soubéssemos.
Não teríamos memória, porque esta existe só na medida do esquecimento.

Então quis dizer a alguém:
- Gosto de ti porque é belo o modo como te esqueces das coisas.

No fundo é assim, seremos singulares pelo que vivemos (a cada dia mais semelhante), mas acima de tudo pelos tons do nosso esquecimento.

Tuesday, March 29, 2011

Saturday, March 5, 2011

Alejandra Pizarnik




"Escucho resonar el agua que cae en mi sueño.
Las palabras caen como el agua yo caigo. Dibujo
en mis ojos la forma de mis ojos, nado en mis
aguas, me digo mis silencios. Toda la noche
espero que mi lenguaje logre configurarme. Y
pienso en el viento que viene a mí, permanece
en mí. Toda la noche he caminado bajo la lluvia
desconocida. A mí me han dado un silencio
pleno de formas y visiones (dices). Y corres desolada
como el único pájaro en el viento."

Alejandra Pizarnik

Sobre a natureza do Real

Berenice Abbott

"Ultimately, the status of the Real is purely parallactic and, as such, nonsubstantial: it has no substantial density in itself , it is just a gap between two points of perspective, perceptible only in the shift from one to the other"

S. Žižek in The parallax view

ouvir a voz interna

Ouvir música é uma experiência activa. Os sons que percebemos são amplificados pela nossa resposta corporal e cerebral ao tentarmos imitá-los. Sentir que estamos também naquela música é a fonte primordial do prazer. Daí a música ser acima de tudo um fenómeno de grupo, de partilha.
Gravar-nos a acompanhar as músicas de que gostamos é um modo de apaziguamento. Uma ideia para alguém: registar-se a si próprio dentro da música e passar a ouvir assim todos os seus discos. Tornar física a sua voz interna, trabalhar para a fusão do pensamento e do som.


Click to hear music file

Tuesday, June 8, 2010

Gestão de custos

Robert Longo

Em vez de um livro de poesia (o último do Gastão Cruz), tive de comprar pensos para o herpes labial.

Wednesday, April 7, 2010

A natureza aérea - comentário a um filme


O recente filme Up in the air de Jason Reitman com protagonismo de George Clooney é um bom material para estudar a ideologia contemporânea.
A película trata de um homem - Ryan (Clooney) - que, a mando de uma grande empresa, tem de se deslocar constantemente a diversos pontos dos EUA com o fim específico de despedir trabalhadores de outras firmas assim estas requeiram os seus serviços. A grande quantidade de trabalho, devida aos frequentes despedimentos em massa, torna-o uma das pessoas do mundo com mais milhas aéreas percorridas, alguém cuja verdadeira casa se situa no ar e não em terra. Um dia, uma psicóloga recém-contratada para a empresa de Ryan decide implementar um sistema de despedimento à distância, por vídeo-conferência. Ryan manifesta-se contra este sistema por o achar desumano e ineficaz. Grande parte do filme desenrola-se enquanto viajam pelo país fora para pôr meio mundo no olho da rua, com o protagonista a tentar mostrar à jovem psicóloga a dura realidade do acto de despedimento. Simultaneamente, Ryan vive o drama do sedentarismo vs. nomadismo; criar família e raízes ou manter a louca vida de aeroportos e quartos de hotel. No fim, a jovem psicóloga sai da empresa por não aguentar a carga emocional, o que é positivamente valorizado por Ryan. Este, apesar de tudo, fica na empresa e opta por manter o seu estilo de vida.

Aqui temos um retrato actual do capitalismo. Face a uma grande crise, a adaptação do sistema leva à perda de milhões de postos de trabalho. Ryan é a corporização do mecanismo capitalista de acção. Despede friamente centenas de pessoas, mas, ambiguamente, ao longo do filme percebe-se a sua preocupação por manter esse acto humano e respeitoso. Tal é a cortesia actual do sistema político-económico: precipitar um rumo inexorável, mas comunicar que tudo irá correr pelo melhor, que o bem-estar de cada um é uma prioridade. Despedimento após despedimento, Ryan repete uma máxima a trabalhadores desesperados (algo mais ou menos assim): "Lembre-se que todos os que vieram a ter sucesso e a conquistar o mundo estiveram sentados no seu lugar". O despedimento é afinal algo bom, há sempre esperança de se vir a ter uma vida melhor.
Porém, para mim, o busílis do filme está precisamente no aspecto relacionado com o seu título, Up in the air. O título do filme é das frases que mais bem caracterizam o sistema capitalista. A sua natureza não pertence a nenhum lugar nem a nenhuma cultura, não tem raízes: é aérea, transversal. Por isso se tem adaptado tão bem a diversas realidades culturais, regimes democráticos ou não. Neste sentido, o filme é um objecto simbólico que representa a suprema liberdade do capitalismo como entidade própria: já nem os EUA o podem controlar, pois ele, para sua sobrevivência, coloca na precariedade o bom e velho cidadão trabalhador americano. Nada há a fazer. O filme explicita, portanto, o descolamento deste sistema económico do lugar onde mais floresceu em direcção a um espaço etéreo e apátrida. Ryan, o arcanjo capitalista, tem de seguir o seu destino nómada.

Sunday, March 28, 2010

"Qui est ici est d'ici"


Depois de perguntar o seu nome, o homem quis saber de onde era ela. O tom, ofensivo.

Ter-lhe-ia respondido:
"Sou daqui."
A genealogia não deveria remontar além do presente.


Monday, February 15, 2010

escarafunchar nos depósitos de livros

Fui dar com isto numa daquelas bizarras livrarias das estações de metro.
O autor é um artista plástico de que gosto. O livro, porém, não é brilhante. Tem os seus momentos bons.
Fica o título.
(a disposição das palavras faz até uma espécie de cruz).

Wednesday, January 27, 2010

Ídolos

Pintura: Armin Rohr

Quando somos novos não hesitamos em pendurar pelas paredes retratos das figuras mais ôcas e artificiais que, não obstante, nos fascinam nessa altura.
Crescemos e passamos a admirar gajos e gajas realmente interessantes. Ficamos fãs de gente bestial.
Mas nem no wallpaper do computador nos atrevemos a meter foto alguma destes ídolos.
Crescer é também evitar compromissos.

Monday, January 25, 2010

quem nos segue

Pintura: Miquel Werte


Quem nos segue pode sempre ser quem vai à nossa frente. Alguém que caminha um pouco adiante de nós mas que sabe precisamente para onde vamos.

Tuesday, January 19, 2010

Vampiros e marxismo



A moda dos vampiros no mainstream cultural pode não ter qualquer explicação, contudo é interessante pensar numa.

A identificação com os vampiros por parte de nós, cidadãos do mundo ocidental, pode ser algo subtil e profundo. Não seremos também seres com uma aparente normalidade e banalidade na vida que simultaneamente, por motivos que não conseguimos controlar, sugamos a vida de outros, mais distantes, que são pobres para que possamos ser ricos?

É a culpa que partilhamos com os vampiros que nos faz empatizar. Sabemos que também nós temos longos caninos afilados implorando por mais.

Friday, January 8, 2010

comunicação da ciência

Museu de História Natural, Londres

Tuesday, December 29, 2009

os coelhinhos de Akmal



Akmal Shaikh queria divulgar a todo o mundo a sua canção e, assim, estabelecer a paz duradoura entre os povos. Um grupo de narcotraficantes prometeu ajudá-lo na sua demanda, mas em troca transformaram Akmal num transportador de droga, sem que este o soubesse. Akmal foi preso e condenado à morte na China, tendo a sua história sido contada nos telejornais de todo o mundo.
O mais curioso é o facto, óbvio e irónico, de que os traficantes de droga conseguiram fazer o que tinham prometido: tornar a canção de Akmal mundialmente famosa.